A Consciência sobre o Trauma

Biologicamente, o trauma não é apenas uma “memória ruim”; é uma alteração física no funcionamento do sistema nervoso e do cérebro. Quando vivemos uma experiência “avassaladora” (do ponto de vista da vítima), o corpo prioriza a sobrevivência imediata em vez do processamento lógico da informação.
Em uma situação traumática, a amígdala (centro de alarme do cérebro) entra em hiperatividade, disparando o sistema de “luta, fuga ou congelamento”. O problema do trauma biológico é que esse alarme “trava” no modo ligado. O cérebro passa a escanear o ambiente em busca de perigo o tempo todo, mesmo quando você está seguro.
Em certos casos, quando uma pessoa traumatizada está em um contexto que espelha um momento traumático que ela viveu, até mesmo quando ela tem consciência que está segura, a amígdala é acionada.
A memória do evento não é arquivada como “algo que aconteceu e acabou”. Ela fica fragmentada e “viva”. É por isso que gatilhos podem fazer o corpo reagir como se o trauma estivesse acontecendo agora.
Nesse sentido, a forma mais eficiente de se curar um trauma, está totalmente atrelada a um processo de ressignificação, na qual estarei explicando de forma mais aprofundada a seguir.
Você sabia que, quando um Pai morre e o filho não o vê morto e nem acompanha o sepultamento do mesmo, por mais que o filho saiba que o pai morreu, inconscientemente ele espelha o pai em outros homens mais velhos com aparência semelhante? Este contexto apresenta a perspectiva sobre o poder da memória e como ela pode afetar significativamente a vida de um indivíduo.
Em algumas tradições, como por exemplo no judaísmo, durante o funeral, os familiares próximos (como filhos e filhas) costumam participar do enterro colocando terra sobre o caixão. Esse ato é importante, pois torna a perda mais concreta.
Experiência sensorial direta: Ver o caixão, o enterro, ouvir a terra caindo… tudo isso envolve vários sentidos. O cérebro tende a aceitar mais facilmente algo quando ele é vivido fisicamente, não apenas pensado. Não se trata apenas do fator de lembrança, trata-se de ter passado por aquilo no corpo.
Integração emocional + cognitiva: A memória que se forma não é só um “registro”; ela vem carregada de emoção, contexto social (família, ritual) e significado cultural. Isso ajuda o cérebro a organizar a perda dentro da própria história de vida.
Quebra da negação: Quando alguém morre, é comum haver uma sensação de “isso não parece real”. Participar do enterro ajuda a reduzir essa negação, porque você presencia o fim de forma concreta.
Essa informação nos ajuda a entender a magnitude do impacto de um acontecimento na memória e no nosso sistema nervoso em paralelo.
Como dito anteriormente; a forma mais eficiente de se curar um trauma está totalmente atrelada a um processo de ressignificação. Um exemplo da perda de um pai é algo muito específico, entretanto, existem processos traumáticos relacionados a diferentes contextos que podem passar por esse processo curativo, e isso só pode ser feito durante a jornada de vida.
Imagine um jovem-adulto que passou por uma situação complexa de bullying, onde o mesmo apanhava dos colegas na escola e na rua, e que devido isso, acabou desenvolvendo um problema grave de autoestima e tristeza profunda.
Para que esse jovem possa ressignificar esse trauma, ele deverá passar por uma situação semelhante, só que em um outro contexto social, como por exemplo no trabalho, onde os mesmos gatilhos que levam-o a tristeza e a baixa-autoestima serão acionados, e quando isso acontecer, ele terá a oportunidade de lidar com aqueles sentimentos de forma á supera-los.
É simples, mas não é fácil, pois por vezes é necessário que a pessoa analise o que ela está sentindo no momento, só assim ela poderá transmutar a tristeza em um sentimento superior.
Apesar de existir um fundamento na forma na qual o ser humano categoriza os sentimentos, como tristeza, culpa, raiva, felicidade, coragem e etc, quando entendemos que sentimentos simplesmente são sentimentos, fica mais fácil de transmuta-los, pois é possível tornar um sentimento negativo em positivo apenas observando-o de outra perspectiva.
Em um momento de tristeza profunda, em vez de dizer pra si mesmo(a) “estou triste”, analise o que sente com a seguinte mentalidade: Isso que eu estou sentindo, apesar de ser tristeza, é um sentimento, como eu posso transformar isso em algo superior? Nesse momento, feche os olhos e tente expandir a energia do desconforto para outras partes do corpo, com paciência.
Só de um indivíduo mudar a perspectiva de um sentimento, ele já fica a um passo de ser um alquimista de si mesmo, capaz de transmutar energias negativas em positivas, o tempo todo.
Resumindo: A cura de um trauma acontece no decorrer da jornada da vida, onde o indivíduo se coloca em fluxo á ponto de que, em algum momento, ele se encontre em contextos semelhantes a de um momento traumático que ele passou, fazendo-o sentir os mesmos gatilhos e os mesmos sentimentos negativos, pois só assim ele terá a oportunidade de analisar o que sente para que haja transmutação e consequentemente, cura.
E para quem tem fé e conexão espiritual, Deus guia neste processo.
Em muitos casos, o veneno é o antídoto.
